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segunda-feira, 7 de novembro de 2011
segunda-feira, 29 de agosto de 2011
EDUCAÇÃO
É intrigante observar como os conceitos hoje estão invertidos, antes os pais eram autoritários e hoje permissivos em demasia, onde tudo pode, não impõem limites, na realidade estão perdidos, não estão sabendo como educar seus filhos e estes se encontram abandonados em seu próprio lar, triste realidade.
Infelizmente muitos pais estão delegando a educação de seus filhos à escola, às creches ou babás.
Nossos filhos necessitam não só de uma educação apreendida na escola através dos livros, mas também da educação autêntica que nós pais transmitimos através de nossas ações, nossos exemplos, nossos valores, enfim, somos responsáveis pela formação do caráter de nossos filhos, somos referências para eles.
O mundo precisa de pais conscientes, que eduquem seus filhos expondo suas histórias de vida, suas falhas, erros, acertos, tristezas, frustrações, alegrias, conquistas, que revelem suas dificuldades e como conseguiram superá-las, assim sendo, estarão subsidiando os filhos a compreenderem o mundo, as pessoas, a adquirirem a capacidade de perceber e trabalhar suas perdas, suas frustrações, a adotarem atitudes estimadas, ou seja, sendo pessoas empáticas, altruístas, leais, idôneas, éticas, capazes de ouvir o outro, de assumirem seus erros, de amar e intuir que o outro é importante pra si e vice-versa, um amor mútuo.
Contudo, testemunhamos pais fazendo tudo por seus filhos, atendendo todos os seus desejos, mimando-os em excesso, castrando-os, impedindo-os de se tornarem pessoas independentes, autônomas, seguras, confiantes.
Os filhos não serão menos felizes porque não viajaram nas férias ou não tiveram sua festa de aniversário ou não tem aquela roupa de grife ou o tênis de marca ou aquele produto eletrônico etc., pelo contrário, eles esperam limites dos pais e testam o tempo todo se serão atendidos ou não em tais solicitações. É muito significativo ensinar-lhes a diferença entre ter coisas e ser uma pessoa útil a comunidade.
Não estou ditando para os pais dizerem sempre não aos seus filhos, mas estou articulando que ao dizerem sempre sim, com certeza terão complicações no futuro com este filho, uma vez que este poderá vir a ser uma pessoa egocêntrica, de difícil convívio social, com dificuldades de respeitar o limite do outro, os direitos do outro etc.
É sabido que tanto o pai quanto a mãe trabalham fora e por extensas horas, portanto os pouco tempo disponíveis que têm com seus filhos, devem ser de qualidade, ser valiosos à criança, porque o filho não precisa de um super herói pra brincar com ele e sim de um pai e de uma mãe que se envolvam de verdade no momento que estão juntos, são instantes preciosos, de muita troca, troca de idéias, de experiências, de contato físico, de transmissão de valores.
Não podemos continuar negligenciando nossos filhos, nem delegando sua educação a outrem e nem os criando em uma redoma de vidro, sendo pais super protetores. Lembremos que tudo em excesso é maléfico.
Que sejamos pais conscientes, discernidos, sábios, perseverantes na educação de nossos filhos e que evoquemos Deus como nosso cúmplice nesta árdua tarefa.
Nossas crianças precisam de exemplos, de espelhos, de ações, de pessoas, de personagens e figuras significativas em suas vidas, para que possam contribuir e fortalecer na formação de sua identidade, de sua subjetividade.
Reflitamos sobre isso.
quinta-feira, 25 de agosto de 2011
Filho Adotivo
Seria mais fácil para a criança, se ela soubesse de toda sua história pregressa à adoção, ou seja, saber sobre seus pais biológicos, o motivo da entrega para adoção etc., pois assim, atenuaria ou dissiparia sentimentos de rejeição, de abandonado, de exclusão, de separação.
Quando não são transmitidas tais informações para a criança, esta começa a ter um emaranhando de pensamentos e questionamentos, por não estar convivendo com sua família biológica.
Dependendo da idade que a criança é adotada, ela pode de imediato sentir-se inserida em seu novo contexto familiar e adotar uma vida normal sem questionamentos, contudo, à medida que o tempo vai passando, que a criança vai crescendo e entendendo o que se passa à sua volta, ela começa a ter curiosidades e dúvidas sobre seu passado, sobre sua família biológica, enfim, sobre sua identidade genética.
Começa a pensar e sentir-se que não foi amada, que não foi querida por seus pais, que foi culpada por ter sido entregue à adoção etc., e por vezes, eclode tais confusões na cabeça da criança, devido a comentários impróprios da própria família, das pessoas que a circundam, comentários estes que não ajudam em nada no desenvolvimento emocional, cognitivo e psicológico da criança, pelo contrário, atinge de maneira negativa na sua auto-estima, na sua auto-imagem, no seu auto-conceito, vindo a sentir-se inferiorizada, desvalorizada, execrada, estigmatizada etc., com forte tendência a se tornar uma pessoa rebelada consigo mesma, com a família biológica, com a família adotiva e por fim com o mundo.
Portanto, tanto a criança como a família adotiva precisariam ser preparadas e acompanhadas por profissionais especializados para esse novo convívio familiar, para os contratempos vindouros, para as situações conflitantes, pois assim sendo, seria um modo de prevenir tantos vínculos anulados entre filhos e pais adotivos.
A criança/adolescente traz consigo sua carga genética, sua subjetividade, sua estrutura da personalidade, então tudo isso implica no entendimento familiar, tem efeitos impactantes entre os membros familiares, daí a importância do acompanhamento com essas famílias.
Muitas vezes a família adotiva tem medo de perder o amor da criança, medo de que ela fique revoltada, medo de que ela vá à busca dos pais biológico etc. e omitem fatos que seriam esclarecedores e confortantes para aquela criança ou adolescente.
Este é um medo comum e equivocado de alguns pais adotivos, pois não irão perder o amor de seu filho adotivo, muito pelo contrario, serão respeitados por tal postura, por narrarem tudo o que sabem, sem nenhuma omissão ou distorção.
O vazio de não ter sido criado por seus pais biológicos sempre irá existir, no entanto, a criança experimentará seu pertencimento em outra família e esta lhe proporcionará amor, bem estar, aconchego, educação, será sua base, seu referencial, mesmo que a nova família tenha falhas, pois toda família tem, a criança discerne que foi acolhida, que não foi desamparada totalmente, que alguém lhe recebeu.
Para que uma pessoa seja considerada pai ou mãe, não basta apenas haver um vínculo genético seu com a criança e sim ser aqueles que educam, sustentam, dão carinho, atenção, condições de crescimento, de desenvolvimento e existência digna, ou seja, os que desempenham os predicativos de um pai ou de uma mãe que visam sempre os interesses da criança.
Hoje, é considerado ascendente aquele que cria e dá apoio, sem se interrogar se, se trata de relação estabelecida por laços biológicos ou sociais e afetivos.
Para finalizar, é fundamental elucidar a criança de um modo sutil e de uma maneira que ela apreenda, que o ato de ela ter sido entregue por seus pais à adoção, seja por motivos externos ou por motivos internos, a ação em si não é sinônimo de desamor e sim de muito amor, para que outra família cuide bem do filho, já que eles (pais biológicos) não podem, não sabem ou não querem cuidar do filho em questão.
Não estou desculpabilizando o ato dos pais terem entregado o filho à adoção e sim apresentando um leque de probabilidades de compreender tal atitude.
Falo com propriedade por ser uma filha adotiva e por ter versado várias fases acima descrito.
Atualmente, agradeço a minha mãe biológica (falecida) por ter permitido eu nascer, de ter cuidado de mim durante um tempo e agradeço em especial minha mãe de coração, por ter me acolhido e me ofertado uma base familiar.
Obrigado por tudo minha mãe adotiva, minha mãe de coração.
quarta-feira, 24 de agosto de 2011
ESCLEROSE MÚLTIPLA
É uma doença grave, extremamente invasiva, um mal que pode incapacitar jovens e que muitas vezes pode ser confundido como labirintite, fazendo com que a pessoa não procure orientação médica logo de imediato. É uma doença do Sistema Nervoso Central, lentamente progressiva, de causa desconhecida que apresenta lesões no SNC, 10 em cada 100 mil habitantes têm a doença no Brasil e é mais comum em mulheres que em homens, manifestando-se em média entre os 18 e 45 anos de idade, sendo seu maior pico por volta dos 30 anos e raramente pessoas na terceira idade desenvolvem a doença.
A esclerose múltipla é uma doença inflamatória, uma doença neurológica crônica que destrói a mielina - uma substância/camada gordurosa que cobre as fibras nervosas do cérebro e facilita a comunicação entre as células.
Essa agressão na mielina acontece silenciosamente e recebe o nome de desmielinização. Com a perda das camadas da mielina, as mensagens que saem do cérebro são atrasadas ou bloqueadas de vez, provocando assim um descontrole interno generalizado.
No local onde a camada da mielina fora destruída, forma-se um tecido semelhante a uma cicatriz, por isso o nome esclerose e é múltipla porque atinge várias áreas do cérebro e da medula espinhal.
Esta doença se caracteriza por surtos periódicos e tende a piorar a cada crise. Apesar de não ser herdada, atinge pessoas geneticamente predispostas à doença e se manifesta de diferentes modos. A gravidade de cada caso está relacionada com a área afetada.
Os principais sintomas são: Falta de coordenação, dormência, dor facial, vertigem, perda da audição, visão turva, perda da visão em um ou ambos os olhos, alteração no controle de urina e fezes, dor nos braços, perda de equilíbrio, comprometimento da memória, depressão, fadiga intensa, mudanças de humor, queimações, sensações de formigamento, tremores, tonturas, dificuldade de deglutição, paralisia total ou parcial de uma parte do corpo. Os sintomas podem ser discretos ou intensos, aparecer e desaparecer.
A evolução da doença é imprevisível e muito variada. No início pode haver períodos longos de meses ou anos entre um episódio ou outro, mas os intervalos tendem a diminuir e eventualmente ocorre a incapacitação progressiva e permanente. Alguns pacientes se tornam rapidamente incapacitados se não tratados. Quando a doença se apresenta na meia-idade a progressão é rápida e sem melhoras e às vezes fatal em apenas um ano.
Há exames que auxiliam no diagnóstico da doença, tais como: a ressonância magnética, avaliação do líquido da medula espinhal e potencial evocado. Por meio da ressonância magnética, são notadas as lesões que surgem no sistema nervoso.
A esclerose múltipla pode se manifestar de quatro formas:
· Remitente-recorrente: é a manifestação clínica mais comum, caracterizada por surtos que duram dias ou semanas e, em seguida, desaparecem.
· Progressivo-primária: apresenta uma progressão de sintomas e comprometimentos (seqüelas) desde o seu aparecimento.
· Progressivo-secundária: pacientes que evoluíram da forma remitente-recorrente e vão piorando lenta e progressivamente.
· Progressivo-recorrente: progressiva com surtos. Desde o início da doença, mostra a progressão clara das incapacidades geradas a cada crise.
Quanto ao tratamento além da medicação, dos cuidados gerais, recomenda-se a fisioterapia, psicoterapia, terapia corporal, hidroterapia, caminhada, hidroginástica, exercícios físicos. Como o indivíduo perde a capacidade de fazer coisas simples, o apoio familiar é de suma importância, uma vez que o ajuda a manter sua vida quase normal e sua saúde mental em melhor condição.
Infelizmente, a ciência ainda não descobriu a causa da doença nem sua cura, atribui-se à doença a uma reação auto-imune do organismo, que em algum momento e por algum motivo, começa a atacar o Sistema Nervoso Central, contudo, as pesquisas não param e há alguns medicamentos que reduzem a intensidade dos surtos, tornando menos frequentes as ocorrências e oferecendo uma melhora na qualidade de vida do paciente. Os remédios são distribuídos pelo serviço público de saúde e devem ser exigidos. Importante ressaltar o acompanhamento do médico junto ao paciente, para controlar possíveis efeitos colaterais.
O acompanhamento terapêutico é fundamental ao paciente de esclerose múltipla. Segundo O neurologista Cícero Galli Coimbra afirma que, "O sistema imunológico é ativado toda vez que enfrentamos uma situação de estresse grave. Avisado de que algo está errado em nosso organismo, ele começa a vasculhá-lo na tentativa de identificar "invasores" como vírus e bactérias. Por fim, acaba atacando a bainha de mielina que envolve os neurônios. Com a estabilidade emocional, 85% dos surtos podem ser reduzidos. Psicoterapia e terapia ocupacional são indicadas para organizar os pensamentos e as atividades".
Para finalizar, em um estudo britânico descobriu-se uma forma de “restauração" da esclerose múltipla, foram feitas analises em ratos que revelaram que células-tronco do cérebro do paciente podem auxiliar no processo. Estimular as células-tronco do cérebro para que elas regenerem estas fibras, regenerem a mielina.
A ciência não cessa em suas pesquisas, os cientistas anseiam poder ajudar a identificar novos medicamentos regenerativos que estimulem o reparo da mielina nos pacientes que sofrem com a doença.
Deus está conosco e logo teremos essa resposta!
sábado, 13 de agosto de 2011
Mito Materno - Nova Representação Social
De acordo com Motta (2008), a ideologia da maternidade nasceu com a sociedade burguesa patriarcal, conferindo a todas as mulheres a faculdade natural de amar sem restrições e de cuidar da criança que concebeu sob quaisquer condições. As que recusam tal destino biológico e social recebem o rótulo de anormais.
A mentalidade, ainda preponderante na sociedade ocidental, que culpabiliza e desconsidera a opção da mulher por não ser mãe ou não criar os filhos que gerou, tem suas raízes no mito do amor materno, que naturaliza e universaliza esse sentimento, engendrando a crença de que este amor é inato à natureza feminina, ao invés de ser descrito como apenas um sentimento humano como outro qualquer e como tal incerto frágil. Pode existir ou não, pode aparecer ou desaparecer, mostrar-se forte ou frágil (Badinter apud Santos, 1998).
Tal mito sustentaria as garantias de amparo, tão caras ao imaginário social. Badinter (1985) nos mostra de maneira muito clara que o amor materno inato é um mito. Torna evidente que este sentimento, considerado como o mais puro e genuíno, que coloca a mãe acima de todas as coisas, pode ser situado historicamente. Ele é adquirido, é produto da evolução social a partir do século XIX, pois nos séculos XVII e XVIII na França as famílias aristocratas entregavam as crianças desde o nascimento às amas. A mãe tinha uma função mais biológica que afetiva, ficando as crianças ao cargo das amas que lhes garantiam a sobrevivência física, o suporte emocional e humanização.
Deste modo, as elaborações sociais e culturais sobre o significado da maternidade estão historicamente associadas à emergência do capitalismo, um sistema social que transforma e revoluciona desde as regras mercantis até os mais íntimos sentimentos que unem os indivíduos entre si. Motta (2008) destaca que determinados “mitos”, como o amor materno, surgiram para atender a interesses econômicos e sociais de uma determinada ocasião, e foram difundidas pelas políticas de gênero vigentes. O mito da “boa mãe” foi eficaz para as tradições familiares e a distribuição de papéis.
O desinteresse geral dos pais pela criança fazia com que elas morressem aos montes. Muitas eram abandonadas nas rodas dos expostos, recurso de acolhimento de crianças enjeitadas por instituições religiosas. Mas a entrega à ama era um infanticídio disfarçado. Apenas um número muito pequeno de pais recuperava seus filhos algum dia. Somente quando essas perdas passaram a interessar ao estado se procurou salvá-las da morte. [...] A verdade é que a criança, especialmente em fins do século XVIII, adquire um valor mercantil. Percebe-se que ela é, potencialmente, uma riqueza econômica. (BADINTER, 1985, p.153). Foi necessária, então, a utilização de muitos argumentos para convencer as mulheres de que era sua vocação instintiva, imaculada e incondicional – ser mãe. Deste modo introduziu o mito do amor materno em primeiro plano e as mulheres foram conclamadas a exercer seus deveres como francesas procriando e cuidando da sobrevivência de seus filhos. Motta (2008).
A mudança de postura em relação à criança estava, portanto, vinculada a essas mudanças e à necessidade do Estado de se afirmar enquanto potência Badinter (1985). Continua a autora, correlatos ao fomento do crescimento populacional surgiram discursos sobre a inerência da maternidade, dos benefícios que esta trazia para as mulheres e os consequentes malefícios quando este objetivo não era realizado. Neste discurso, as mulheres foram consagradas como o eixo da família, responsáveis pela casa e pela criação de filhos moral e fisicamente sadio, os futuros cidadãos honrados de quem dependiam os destinos das nações. A sobrevivência das crianças agora é prioritária e o abandono do aleitamento é considerado injustiça para com o filho.
Buscou-se regular a vida da mulher através de normas higiênicas: a amamentação foi a mais enfática das imposições e tinha também, como objetivo a regulamentação do tempo livre da mulher na casa, livrando-a do ócio e dos passatempos que iam contra a moral e os bons costumes familiares. Essa delimitação das ações da mulher, no lar, objetivava ainda enfraquecer seus desejos de independência, já que [...] nada se dá na mulher que não influa mais ou menos diretamente sobre o inocentinho que traz no ventre, e uma das causas que mais nos convence dessa verdade são as impressões morais [...] (ALMEIDA, 1883, p.2).
Engels (1981) associou as formas de organização familiar ao surgimento da propriedade privada e do Estado. Para ele, a família patriarcal e individual moderna corresponde ao desenvolvimento da propriedade privada, constituindo a premissa para a cisão histórica, própria da era burguesa, entre esfera pública e esfera privada, sendo que esta última se desenvolve simultaneamente com a propriedade e a família.
É, portanto, neste espaço privatizado que surge um sentimento novo entre os membros da família, particularmente entre mãe e filho: [...] o sentimento de família, “essa cultura”, centralizava-se nas mulheres e crianças, com um interesse renovado pela educação das crianças e uma notável elevação do estatuto da mulher [...] (ARIÈS, 1978, p.25).
A técnica de persuasão mais eficaz foi à analogia entre mãe e santa, exigindo-se da mulher sacrifício e reclusão. A maternidade passou a ser encarada, então, como um sacerdócio, que exigia da mulher paciência e total dedicação. O "instinto maternal" guiou a mãe a uma dedicação e amor sem limites uma vez que o devotamento era apontado como parte integral da "natureza" feminina e que nele estava à fonte mais segura de sua felicidade. [...] o ato mais natural da vida da mulher e pelo qual ela se torna grande, sublime, isto é, pelo qual ela se torna mãe, é o parto (COSTA, 1881, p.41).
A partir do século XVIII, a sociedade européia passou por uma série de mudanças sociais, políticas, econômicas e culturais que abalaram a estrutura da Igreja, forçando-a a repensar o discurso que dirigia às mulheres. Paulatinamente a instituição católica passou a associá-las à maternidade. Nesse contexto teria se operado uma transformação dos costumes que, segundo Badinter (1985), transformou a antiga concepção de mulher para a de uma pessoa doce e sensata, de quem se esperava comedimento e indulgência: Eva cede lugar, docemente, a Maria. A curiosa, ambiciosa, metamorfoseia-se numa criatura modesta e ponderada, que não ultrapassa os limites do lar.
Afirmava-se que a necessidade de maternagem é uma característica universal feminina, fazendo-a parecer um dom, um sentimento instintivo e estritamente biológico que todas as mulheres vivenciariam independentemente da cultura ou da condição sócio-econômica: pré-concebido, pré-formado, esperava-se apenas a ocasião para exercê-lo, sofrendo-se quando a oportunidade tardava. Essa concepção foi reforçada pelo discurso católico do século XIX, quando a Igreja, embasada na capacidade física da reprodução, específica da natureza feminina, passou a apresentar a maternidade como característica fundamental do gênero feminino. A condição de reprodutora passou a legitimar uma função social da mulher – a maternidade –, cada vez mais associada à idéia de sentimentalidade e de amor incondicional que as mães teriam pelos filhos.
De acordo com Giorgio (1991), a igreja passou a repensar o caráter feminino, jogando para as mulheres a responsabilidade como progenitoras de uma nova época, de novos homens, cujas vidas deveriam ser preparadas no seio de uma família moderna. Esta se transformou, e com ela os papéis de seus membros. Pais e maridos continuavam sendo as figuras proeminentes. Mas a distância social entre os cônjuges e entre pais e filhos tinha se tornado menos nítida. Continua a autora, que o núcleo dessa nova vida familiar seria a casa, um lugar privado e protegido contra as influências do pensamento que vigorava fora de seus muros externos. O lar passou a ser exaltado como lugar de felicidade feminina, no qual a mulher tinha autonomia. Ali a mãe zelava pelos seus filhos, pelo seu marido, sendo a guardiã moral do grupo familiar: “Ser outro, para outro, através do outro”.
Características como fragilidade e sensibilidade, atribuídas à natureza feminina, foram valorizadas como positivas e desejáveis. A idéia de sensibilidade passou a ser associada à de sentimentalidade, ou seja, à suposta predisposição natural da mulher em ser mais volúvel no que se referia às questões de ordem emocional e moral. Difundiu-se a crença de que a mulher teria maior capacidade para apreender e transmitir as virtudes morais da religião.
Giorgio (1991), afirma que os teóricos católicos se esforçaram para tentar livrar o discurso do forte peso da questão carnal e corpórea da mulher. O corpo ainda permanecia como o lugar do pecado. Mas as prescrições morais tentavam contê-lo, através de um controle maior sobre o comportamento social das mulheres, sobretudo das raparigas.
A Igreja temia os encontros sociais mistos, alegando que eles punham em risco a virgindade feminina. Portanto, era preciso impor uma moral religiosa que afastasse meninas de meninos. Principalmente naquela época em que, de acordo com o autor, a descoberta oitocentista de que a adolescência feminina esconde uma reserva de rêveries (sonhos) de difícil controle preocupa os católicos (e não menos os leigos) (GIORGIO, 1991, p. 222).
Considerando essa “descoberta”, que reconhecia a existência de desejos naturais (sexuais) nas adolescentes, a Igreja escolheu o mês de maio para dedicar a Maria, mãe de Jesus. Destaca-se o fato de que, no continente europeu, esse é o período da primavera, relacionado ao desabrochar e ao florescer da natureza. Assim, temendo essa época de fertilidade natural, ao criar o mês de Maria, mãe e virgem, a Igreja pretendia através das orações e coroamentos dedicados a Ela, conservar a inocência feminina (GIORGIO, 1991, p. 222).
O que se pedia às mães eram oração e sacrifício, e por isso a identificação social feminina não poderia prescindir do exemplo das santas. Como estas, era preciso ter uma preparação espiritual e cristã que admitisse a necessidade do sacrifício. Segundo Badinter (1985), já não se falava mais da maternidade senão em termos de sofrimento e de sacrifício, deixando-se, por lapso ou esquecimento voluntário, de prometer a felicidade que deveria ter sido a sua decorrência natural.
As dificuldades decorrentes da função da maternidade foram ressaltadas. Não era fácil ser uma boa mãe; afinal, era preciso esquecer-se de si: esse esquecimento de si eleva a boa mãe acima da condição humana, espontaneamente egoísta. Ela torna-se, portanto, uma santa, porque o esforço exigido é imenso. Mas, contrariamente às vocações religiosas, que são livres e voluntárias, a vocação materna é obrigatória (...) todas as mães têm a mesma missão: sacrificar sua vontade ou seu prazer para o bem da família. (GIORGIO, 1991, p. 271).
A salvação da mulher seria encontrada na devoção à família, no seu “dever materno”. Badinter (1985) defende a idéia de que esse devotamento sem limites seria a dor “expiadora” por excelência, aquela que permitiria a Eva transfigurar-se em Maria.
Badinter (1985) situa entre os séculos XVIII e XIX a emergência da representação de maternidade tal como a conhecemos, ou seja, baseada na idéia do amor natural, instintivo, das mulheres por seus filhos. É a partir de 1760 que surgem as primeiras publicações recomendando às mulheres que cuidassem de seus filhos, o que incluía forte ênfase sobre a amamentação.
O ideal de amor não levou as mães a amamentarem, em especial as mais abastadas e as mais pobres, por motivos diferentes. Foi necessário então se apelar à obrigatoriedade da natureza, já que se a mais selvagem das feras amamenta seus filhos, a mulher também estaria submetida a esse instinto, como todo animal: serem boas reprodutoras era o que lhes convinha. [...] a mulher não deve se envaidecer ou extrair prazer de seus órgãos, pois sua função essencial é nutrícia. A natureza criou a fêmea antes de qualquer coisa, permitindo-lhe alimentar o filho com o próprio leite. Ai daquelas que o esquecessem! (BADINTER, 1985, p.183). Continua a autora, as mulheres eram também ameaçadas com a possibilidade de enfermidades se não amamentassem. [...] essa trágica descrição dos riscos corridos pela mãe má mostrava que a natureza sabia se vingar cruelmente das mulheres que lhe desobedecessem. (BADINTER, 1985, p.197).
Como a insistência no instinto materno por si só não havia provocado grandes mudanças e as mulheres não vinham cedendo aos argumentos de que amamentar seria o melhor para preservar a sua saúde e a de seu filho; nem o da beleza das mulheres grávidas; ou a felicidade que apenas o ato da amamentação lhes daria, passou-se a conceber a mãe como alguém puro a quem se atribuem apenas sentimentos nobres de acolhimento, abrigo e continência. [...] em nenhum caso ela deve se aborrecer ou mostrar à menor impaciência, pois a mãe ignora o principio do prazer e a agressividade [...] (BADINTER, 1985, p.244). Assim, se oferecia a elas a estima, o respeito e a dignidade da sociedade por serem mães dignas deste imaculado nome.
Embora a transição para este novo papel transcorresse lentamente, as mulheres do final do século XVIII, e, sobretudo as do século XIX, tanto as abastadas quanto as pobres, introjetaram o papel da boa mãe. Inicia-se, segundo Badinter (1985), a era das provas de amor, tornando-se o bebê e a criança os objetos privilegiados da atenção materna. Não casualmente, data do século XIX a presença de um novo personagem no seio das famílias: o médico, que se torna um fiel cúmplice e conselheiro das mães, passa a difundir as normas higiênicas que irão regulamentar o cuidado com a saúde das crianças.
Contudo, as mulheres pobres, camponesas e operárias, viviam outra realidade e sua tardia adesão ao novo papel materno deu-se por outros percursos. Seus filhos começavam a trabalhar ainda na infância, já contribuindo para a subsistência familiar. As precárias moradias da época revelam que não havia espaço para a intimidade familiar. As mães não tinham tempo para cuidar dos filhos, muito menos para promover-lhes atenção, carinho e educação. As taxas de fecundidade, ainda altas, faziam com que as mulheres pobres tivessem muitos filhos, o que tornava irrealizável o ideal de dedicação materna.
Esse contexto permitiu a legitimação do mito do amor materno.
Essa mudança de mentalidade, como toda mudança, trouxe conseqüências: ao mesmo tempo em que muitas mulheres passaram a ter orgulho e alegria na maternidade, outras que talvez não sentissem essa vontade se sentiam culpadas, frustradas e obrigadas a ser mãe.
Conforme Badinter (1985), o ideal da mãe perfeita construído por cada sociedade em geral e por cada família, em particular, tem influências que podem ser positivas ou negativas para mulher e para a criança, assim como para todos de seu convívio íntimo. Muitas mulheres se sentem atormentadas por pensamentos acerca de estarem, ou não, sendo boas mães: ao mesmo tempo em que a sociedade lhes cobra amarem seus filhos incondicionalmente, muitas vezes elas não vivenciam dessa maneira. Em alguns momentos, sentem raiva de seus filhos, dúvidas e se culpam. Contudo, pode-se freqüentemente identificar sentimentos de dúvida e ambivalência no discurso espontâneo das mulheres contemporâneas quando se vêem envolvidas com as questões da maternidade. Muitas se culpam por não sentir ou não agir de acordo com os modelos valorizados na sociedade, com normas inconscientemente internalizadas que se reproduzem através das gerações, integram a subjetividade feminina e modelam papéis. Estas mulheres podem se sentir assim por não amarem incondicionalmente seus filhos, sentirem raiva ou frustração pelo nascimento de uma criança, o que não corresponde àqueles ideais normativos internalizados.
Acredita-se que uma mulher pode conceber e não necessariamente sentir amor por uma criança, e outros imperativos possa fazê-la cuidar de sua criança. Valores morais e sociais são determinantes sobre o desejo e o dever de ser mãe. Os valores de uma sociedade são por vezes tão imperiosos que têm um peso incalculável sobre os nossos desejos (BADINTER, 1985, p.16).
ASCENÇÃO DA CRIANÇA: DO IGNORADO AO STATUS “SER”
Torna-se necessário a alusão a dados importantes ocorridos ao longo da historia, com intuito de conhecer e clarificar como se promoveram as transformações no tratar o no cuidar da criança, a partir da sociedade Francesa.
Conforme Ariès (1981) destacou que, durante parte da Idade Média, as crianças eram consideradas como miniaturas de adultos, sem estatuto social nem autonomia, não era vista como um ser real, histórico, concreto, ou seja, não havia a “idéia de infância”. Era como se a criança não existisse enquanto ser concreto e diferenciado do adulto, haja vista sua inexistência seja no campo das artes, seja na opinião de que havia uma alma também imortal. As crianças vestiam-se como os adultos e conviviam naturalmente no mundo adulto, tanto nas festas, jogos, sexualidade e, posteriormente na escola. Não havia, portanto, uma idéia de infância, nem um sentimento pela infância: “O respeito às crianças era então (no século XVI) algo totalmente ignorado. Os adultos se permitiam tudo diante delas: linguagem grosseira, ações e situações escabrosas; elas ouviam e viam tudo” (ARIÈS, 1981, p. 128).
Para Roig e Ochotorena (1993), até a Idade Média, a criança ainda era vista como pertencente a uma categoria inferior e, para sair dela, precisava crescer. Era vista como um ser imperfeito que, nesse estágio infantil, não merecia nenhum respeito.
Segundo Cambi (1999), a criança tinha um papel social mínimo, sendo muitas vezes, consideradas no mesmo nível que os animais, mas não na sua especificidade psicológica e física, a tal ponto que eram geralmente representadas como pequenos homens, tanto na vestimenta, como na participação na vida social. Até os brinquedos eram os mesmos dos adultos e só com a Época Moderna é que se irá delineando uma separação.
Com base em Badinter (1985), sabe-se que nos séculos XVII e XVIII as mães costumavam ver seus filhos de maneira diferente do que na atualidade. As crianças passavam quase toda a primeira infância com amas-de-leite. Imediatamente que voltavam ao lar eram mandadas para colégios internos. Assim, as mães não participavam do desenvolvimento, do aumento, das evoluções de seus filhos. Aliado a isso, a criança não era vista como ser em desenvolvimento, dotada de direitos. A criança era considerada um estorvo, pois os cuidados, a atenção e fadiga que um bebê representa no lar nem sempre parecem agradar os pais. (BADINTER, 1985, p. 64).
Havia uma concordância maternal em certas sociedades de matarem as filhas mulheres. Havia também, o que Badinter (1985) chamou de amor relativo, amava-se mais o menino que a menina, mais o primogênito que o caçula. Alem do mais, o filho mais velho era amamentado e cuidado pela mãe. Segundo a autora, até o final do século XVII e início do século XVIII, o comportamento da mãe oscilava entre a indiferença e a rejeição.
O direito de vida e morte dos pais sobre a criança perdurou até o século IV d.C., conforme afirma Weber (2000). Na realidade, essas práticas prosseguiram, apesar da ilegalidade, até o final da Idade Média. Uma mudança mais significativa só ocorreu com a chegada do cristianismo.
Durante séculos o abandono e o infanticídio fizeram parte do cotidiano das sociedades. Os pais tinham sobre os filhos, direito de vida e morte. Foi somente no final do Império Romano com Constantino – 313 a 337 d.C. (VICENTINO, 2000), considerado o último dos grandes imperadores, que a primeira lei contra o infanticídio foi escrita e reconhecida formalmente, isto porque ele reconheceu a religião católica. Mesmo assim essa prática continuou existindo até a Idade Média.
O abandono de crianças à própria sorte, o infanticídio, o aborto como meio de contracepção são práticas costumeiras em diversas sociedades, práticas nem sempre aceitas legalmente, mas, segundo Ariés (1989), sempre "toleradas". Para o autor O infanticídio era um crime severamente punido. No entanto, era praticado em segredo, correntemente, talvez, camuflado, sob a forma de um acidente: as crianças morriam asfixiadas naturalmente na cama dos pais, onde dormiam. Não se fazia nada para conservá-las ou para salvá-las. (ARIÈS, 1989, P.17).
Conforme Badinter (1985), no século XVII, principalmente entre a burguesia, que se disseminou o hábito de deixar a criança na casa das amas, a tarefa de amamentar não era nobre para uma dama. A abertura da primeira agência de amas-de-leite em Paris tem como data o século XIII. As crianças eram entregues às amas desde o nascimento, para que fosse criada e garantida sua sobrevivência física, era um fenômeno generalizado em todas as camadas sociais, revelando verdadeiro abandono moral e afetivo por parte da mãe, do pai e de toda a sociedade, deixando as crianças em situações catastróficas. Esse cuidado envolvia seu deslocamento para a casa dessas amas e seu retorno para a família só acontecia depois dos cinco anos, quando resistiam, pois as condições de higiene em que sobreviviam eram precárias. Moralistas do século XVIII ressaltam que os pais eram mais exigentes na escolha de uma criada ou de um serviçal de estrebarias do que com as amas de leite.
Segundo Badinter (1985), a amamentação nessa época era considerada ridícula e repugnante. Muitos maridos abominavam a amamentação e, mesmo que o marido a aceitasse, os médicos da época proibiam as relações sexuais durante a amamentação, pois, para eles, o esperma poderia azedar o leite.
Não era só a indiferença que levava as mães a entregar seus filhos às amas, mas o medo de perder os maridos, a beleza e a saúde. Em nome da etiqueta social, as mulheres da nobreza eram desaconselhadas a amamentar seus filhos, pois tal prática não condizia com uma dama superior. Consideravam um gesto despudorado, com uma imagem animalizada. As interrupções para as mamadas e os longos períodos de aleitamento eram inconvenientes e impediam a vida social do casal. O cheiro de leite causava aos maridos aversão, como sinônimo de sujeira, um verdadeiro antídoto contra o amor (BADINTER, 1985, p.97).
De acordo com Badinter (1985), no final do século XVIII observa-se um início de sentido de alerta para as condições de vida das amas a quem se entregavam as crianças: mulheres em estado de miséria, vivendo em condições subumanas. As crianças eram entregues às intermediárias muitas vezes sem saber seu nome, e a própria criança muitas vezes também não tinha nome: havia grande possibilidade de que essas crianças nunca mais fossem vistas. As mais frágeis eram devolvidas mortas alguns dias após saírem da casa dos pais. A intermediária, muitas vezes responsável por muitas crianças ao mesmo tempo, poderia mesmo não se dar conta da perda de um bebê que caísse da carroça e morresse esmagado pela sua roda. Quando o bebê sobrevivia até a casa da ama enfrentava varias dificuldades, entre elas a alimentação. As amas exauridas pelo trabalho e mal alimentadas tinham a oferecer à criança um leite de péssima qualidade. Também se acreditava que o caráter se passava pelo leite, se trocava, então, a amamentação do seio por uma alimentação grosseira, inadaptável ao estomago delicado do recém-nato. Muitas amas, para não terem aborrecimentos ou não serem incomodadas pelos choros do bebê, utilizavam-se de narcóticos para fazê-los dormir e muitos morriam por excesso desses medicamentos. [...] mas quando a alimentação não é fatal ao bebê, sua natureza tem ainda de vencer um mal temível: a sujeira e a falta do mínimo de higiene[...] (BADINTER, 1985, p.124).
As crianças ficavam cobertas de fezes durante todo o dia, muitas vezes semanas com a mesma roupa, sua pele se inflamava e ficava coberta de úlceras. Eram enfaixadas, para evitar luxações na coluna, com os braços sobre o ventre e panos entre as pernas, o que impedia que os excrementos se afastassem do corpo e fazia com que este ficasse marcado e ferido. Tal bandagem pressionava as costelas e perturbava a digestão e a respiração. Muitas amas camponesas penduravam os bebês pela roupa, em um prego à parede, para evitar que fossem feridos ou servissem de comida dos animais das fazendas. As crianças permaneciam em média quatro anos na casa das amas e muitas delas prolongavam o período de desmame interessadas em manter o contrato de serviço e os parcos honorários. Os pais não pareciam se preocupar com a sorte dos filhos, sem visitá-los ou ao menos escrever demandando notícias. As crianças, ao retornar para a casa dos pais, se deparavam com verdadeiros estranhos, que, muitas vezes, não desejavam o retorno deste filho (BADINTER, 1985).
De acordo com Ariés (1981), a morte de um filho não era vivenciada com dor nem aflição, era encarada muito naturalmente, sem qualquer desespero, chegava a ser banalizada, pois uma criança era facilmente substituída. Essa negligência e abandono eram de aceitação comum na sociedade. A partir de sua devolução pelas amas às famílias, eram considerados adultos em miniaturas, sendo inseridos no mundo deles, sem restrições, não existindo o sentimento de infância.
O sentimento de família começa a surgir nos séculos XV e XVI e só se expressa com mais intensidade no século XVII, segundo afirma Ariès (1981). A família era uma realidade muito mais ligada a preceitos morais e sociais do que a razões sentimentais. E, em decorrência dessa concepção, as crianças pequenas continuavam a ser enviadas para as aldeias vizinhas, no caso de pais burgueses, para serem amamentadas pelas amas-de-leite. Essa prática só se extinguiu no século XIX, quando os progressos da higiene e da assepsia permitiram que o leite animal fosse utilizado sem risco.
É a partir do século XVII que as crianças começam muito timidamente a receber outro olhar, embora muito aquém dos dias de hoje. Do anonimato, passaram a ser seres engraçadinhos, que davam diversão. A aprendizagem que se dava no trabalho com os adultos passa a ser substituída pelas escolas, e começa uma preocupação com o infanticídio. No século XVII, de um infanticídio secretamente admitido passou-se a um respeito cada vez mais exigente pela vida da criança (ARIÈS, 1978).
Neste mesmo período, por influência da reforma religiosa, especialmente na França e Inglaterra, continua o autor, surge à idéia da inocência infantil, aparecendo, então, a preocupação com a decência: Os moralistas queriam isolar a criança para preservá-las das brincadeiras e dos gestos que então passaram a ser considerados indecentes, [...] nunca deveria deixar-se a criança sozinha, ou muito tempo aos cuidados dos criados, [...] deveria evitar-se mimar as crianças, habituando-as desde cedo à seriedade [...] e tratá-las com reserva e exigir senhorio, para evitar uma familiaridade exagerada. (ARIÈS, 1981, p. 144 –145).
Dessa forma, surgiram medidas para salvar as crianças. As condições de higiene foram melhoradas e a preocupação com a saúde das crianças fez com que os pais não aceitassem perde-las com naturalidade e, os que perdiam, aceitavam como sendo a vontade de Deus, segundo a orientação religiosa da época. No século XIV, devido ao grande movimento da religiosidade cristã, surge a criança mística ou criança anjo; [...] essa imagem da criança associada ao Menino Jesus ou Virgem Maria, causa consternação, ternura nas pessoas. (OLIVEIRA, 1999, p. 22).
De inexistente, a criança “eleva-se” ao status de “ser” a quem deve ser imposto decência e disciplina, cujo comportamento deve ser vigiado, controlado e punido, como ditam os então chamados “manuais de civilidade”, cujo valor intrínseco de edificação e ascese recebeu influência determinante da eclesiástica ou religiosa.
Percebem-se as desigualdades de classe e gênero, uma vez que todos estes cuidados e prerrogativas eram conferidos aos meninos. As meninas seguiam sendo educadas em casa, por uma parenta ou vizinha. E, mesmo aos meninos, a escolarização estendeu-se primeiro à camada média da hierarquia social, evidenciando as desigualdades de classe, além das de gênero, entre a criança burguesa e a criança do povo.
[...] a família e a escola retiraram juntas as crianças da sociedade dos adultos. A escola confinou uma infância, outrora livre, num regime disciplinar cada vez mais rigoroso, que nos séculos XVIII e XIX resultou no enclausuramento total do internato. (ARIÈS, 1981, p.277).
Ariès (1978) descreve que, entre os séculos XVI e XVII, a criança conquista um lugar junto aos pais. Diferente da família medieval que deixava as crianças com estranhos, agora, a visibilidade de sua vulnerabilidade e a sua importância fazem com que os adultos passem a se preocupar com a sua educação, saúde e futuro, e querer reter a criança junto de si. Continua o autor, no século XVIII, processa-se claramente a separação entre família e sociedade, entre privado e público. Enfatiza-se a intimidade familiar e isto aparece também na arquitetura da casa, que passa a ter cômodos com separações para assegurar a privacidade dos indivíduos na própria família. Este fato é apontado como uma das maiores mudanças na vida cotidiana familiar.
No final do século XVIII e início do XIX o Estado passa a se preocupar com a vida das crianças, preconizava a importância da população para um país, levando a criança a um valor mercantil, a idéia era de que precisavam de seres humanos que seriam a riqueza do Estado. O ser humano converteu-se numa provisão preciosa para um Estado, não só porque produz riquezas, mas também porque é uma garantia de seu poderio militar. Em conseqüência, toda perda humana passa a ser considerado um dano para o Estado. (BADINTER, 1985). Continua a autora, com isso, a presença da mãe junto a seu filho é cobrada de forma ilimitada. A maternidade passa a ser um ideal, e assumi-la, sacrificando-se pelo filho, é característica da boa mãe, a santa mulher. Não assumir a maternidade, em contrapartida, é assumir-se como mãe má, indigna e mulher incapaz. O trabalho feminino é condenado e o universo da mulher passa a ser o seu lar, enquanto ao pai cabe a questão econômica.
A função do pai é minimizada, passa a se limitar à tese econômica, é visto apenas como provedor. A família volta-se para a intimidade, torna-se privada e a mãe admite uma importância que nunca havia tido; essa é a família moderna, família burguesa. A mãe passa a ser responsável pela criação e educação dos filhos, pelo cuidado da casa, com isso a mulher burguesa torna-se o eixo da família, nela passa a ser depositada toda a responsabilidade pela felicidade ou infelicidade do filho, é colocado que só depende dela que o filho alcance sucesso ou não, isso passou a ser visto como natural inato à mulher (BADINTER, 1985).
Ghiraldelli Jr. (2002), a idéia de infância aparece, portanto com a sociedade capitalista urbana – industrial na medida em que mudam a inserção e o papel social da criança na comunidade. Se, na sociedade feudal, a criança exercia um papel produtivo direto (de adulto) assim que passa o período de alta mortalidade, na sociedade burguesa ela passa a ser alguém que precisa ser cuidada, escolarizada e preparada para atuação futura.
Os intelectuais no advento dos tempos modernos, nos séculos XVI, XVII, e XVIII, deixaram de ver a criança através da teoria do homúnculo, isto é começaram a abandonar mais ou menos rapidamente a idéia de que a criança era apenas um pequeno adulto, um ser menor e menos perfeito (Ghiraldelli Jr. 2002, p.15).
É só a partir do século XIX que a família começa a se organizar em torno da criança, dando-lhe um papel de destaque. Os pais começam a interessar-se pelos estudos de seus filhos, e a afetividade que até então não existia, ou não era declarada e atuada, toma espaço de uma forma crescente. Marca-se aí a transformação da família: passa-se do público ao privado. A sociedade que tinha um papel especial, que se misturava e não se distinguia da família, sendo as casas uma continuidade da rua e dos negócios, passa a um segundo plano. As casas, que não permitiam qualquer intimidade e individualidade, precisando passar de cômodo em cômodo, pois não havia corredor, e com várias camas num mesmo cômodo que abrigavam casais, empregados e crianças, sem quaisquer reservas, passam a ter suas divisões, e cada cômodo respeita a privacidade que lhe é exigida. Enfim, a família se transforma, os valores são outros. “A família deixou de ser apenas uma instituição do direito privado para a transmissão dos bens e do nome, e assumiu uma função moral e espiritual, passando a formar os corpos e as almas” (ARIÈS, 1981).
A representação da criança mística, aos poucos, vai se transformando, assim como as relações familiares. A mudança cultural, influenciada por todas as transformações sociais, políticas e econômicas que a sociedade vem sofrendo, aponta para mudanças no interior da família e das relações estabelecidas entre pais e filhos. A criança passa a ser educada pela própria família, o que fez com que se despertasse um novo sentimento por ela. ARIÈS (1981) caracteriza esse momento como o surgimento do “sentimento de infância”, que será constituído por dois momentos, chamados por ele de paparicação e apego.
A paparicação representava um sentimento despertado pela beleza, ingenuidade e graciosidade da criança. E isto fez com que os adultos se aproximassem cada vez mais dos filhos. Assim, os gracejos das crianças eram mostrados a outros adultos, fazendo da criança uma espécie de distração, tornando-se “bichinhos de estimação”, como cita: [...] ela fala de um modo engraçado: e titota, tetita y totata [...] e [..] eu a amo muito [...] ela faz cem pequenas coisinhas: faz carinhos, bate, faz o sinal da cruz, pede desculpas, faz reverência, beija a mão, sacode os ombros, dança, agrada, segura o queixo: enfim, ela é bonita em tudo o que faz. Distraio-me com ela horas a fio [...] (ARIÈS, 1981, p. 68).
As crianças começam a receber nomes próprios e, a saber, quantos anos têm, assim como os pais passam a considerar importante saber quantos são os seus filhos. Surge uma especificidade deste período da vida, expresso pelos novos lugares que lhe são determinados nos cômodos das casas, na dimensão dos móveis, nas atividades que lhe seriam proibidas. E há também um lugar entre os saberes, justificando uma medicina especializada e uma pedagogia que lhe sejam próprias. No século XVIII começa a surgir uma preocupação com a higiene e a saúde física, inspirada pelas ações médicas: a designação específica do campo da Pediatria surge em 1872. De acordo com Badinter (1985), os médicos, até então, não tratavam as crianças por considerarem desnecessário qualquer cuidado e não digna a tarefa.
No século XVII, a “paparicação” foi considerada como algo prejudicial pelos moralistas, visto que as crianças tornaram-se mal educadas e mimadas. Foi recomendada então, a educação e moralização das crianças com objetivo de torná-las pessoas honradas e racionais. Esta proposta de educação e moralização dos jovens foi confiada aos colégios que, nessa época, já tinham sido estendidos aos leigos, nobres, burgueses e às classes populares. Segundo Ariès (1981), a criança deixou de ser divertida e agradável e tornou-se educável, sendo assim, a aprendizagem perdeu seu caráter empírico e adquiriu uma forma mais pedagógica e passou a ser feitas nas escolas através do ensino de teorias de ofícios.
[...] a família e a escola retiraram juntas a criança da sociedade dos adultos. A escola confinou uma infância, outrora livre, num regime disciplinar cada vez mais rigoroso, que nos séculos XVIII e XIX resultou no enclausuramento total do internato (ARIÈS, 1981, p.277).
É valido ressaltar, que mesmo quando se começou a entender a criança como um ser diferente do adulto, a infância ainda não era relacionada à idéia de inocência. De acordo com Ariès (1981), a noção de “criança inocente” começou a se formar através da literatura pedagógica, contribuindo para justificar a necessidade de uma educação formal e continuada que viesse a preparar a criança para o mundo adulto. Outro fator central teria sido a emergência do capitalismo comercial e a formação da classe média, que começava a preocupar-se com a formação daqueles que dariam continuidade aos seus negócios no futuro
Um novo marco importante, no que diz respeito ao reconhecimento e valorização da infância foram à criação do Conselho da Criança e do Adolescente, no ano 1990, que explicitou melhor cada um dos direitos da criança e do adolescente bem como os princípios que devem nortear as políticas de atendimento. Determinou ainda a criação dos Conselhos da Criança e do adolescente e dos Conselhos Tutelares. Os primeiros devem traçar as diretrizes políticas e os segundos devem zelar pelo respeito aos direitos das crianças e dos adolescentes, entre os quais o direito à educação, que para as crianças pequenas incluirá o direito a creches e pré-escolas (CRAIDY, 2001, p.24).
O Estatuto da Criança e do Adolescente foi sancionado pelo Presidente da República tornando-se a Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990, ele representa uma ruptura com a tradição nacional e Latino-americana nesse setor. Essa lei concretiza os direitos da população infanto-juvenil e vem afirmar o valor intrínseco da criança como ser humano, o respeito à sua condição de pessoa em desenvolvimento, o reconhecimento da sua vulnerabilidade, o que torna tanto a criança quanto o adolescente merecedores de proteção integral por parte não só da família como da sociedade e do Estado.
O Estatuto da Criança e do Adolescente aponta na direção de superação do assistencialismo, ou seja, as políticas e programas governamentais e visa ao atendimento das reais necessidades dessas crianças e adolescentes. Isso significa encará-las como sujeitos de direitos exigíveis em lei. Porém, para que, isso se concretize, é necessário um novo tipo de trabalho social, baseado na noção de cidadania. [...] só assim será possível as nossas crianças e adolescentes transitar das necessidades para os direitos, da condição de menor (diminuído social) para a condição de cidadão, detentor do direito de ter direito (COSTA, 1994, p. 27).
A criação do Estatuto é, portanto, o resultado de um processo de mobilização de vários segmentos da sociedade. Esse movimento envolveu a produção de concepções novas juntamente com as propostas de atuação de atendimento às políticas públicas, que sustentam o avanço atingido até o momento e produzem as transformações e contradições na ordem social instituída OZELLA (2003).
Ações do Psicólogo em Relação à Mãe Doadora
Toda separação mãe/filho é moralmente tendenciosa e predispõe um julgamento negativo sobre o ato, provoca angústias e pode-se remeter o profissional a dogmas, como o do amor materno por exemplo. Entende-se que apelar aos dogmas é uma tentativa de encontrar respostas rápidas, livrando-se da ansiedade gerada pelo tema; mas é preciso enxergar o problema como sendo bem mais amplo e complexo, um problema de difícil solução e não tender a classificá-las segundo estereótipos que a sociedade já lhe impôs. Assim sendo, liberto dos dogmas e de quaisquer pré-conceitos, será possível ao profissional perceber que a atitude de entrega, pode revelar uma atitude responsável, lúcida e um ato de amor.
Motta (2005) autentica a idéia de questionar: como situar em relação à crítica feroz aquelas jovens solteiras pressionadas pela família, abandonadas pelo parceiro, sem emprego e às vezes sem lugar para morar? (MOTTA, 2005, p.60). Assim a autora julga indispensável, um exame e elaboração do histórico de perdas dessas mães, pois auxiliando melhor essas mulheres a superarem seus problemas se tornaria mais fácil tornar-se apta a criar seus filhos, ou realizar sua entrega dentro de condições mais adequadas, saudáveis e legais, evitando traumas, arrependimentos e contestações das doações no futuro. Essa autora aponta que a incompreensão para com essas mulheres se deve à conservação do ideal social de ser mãe, pois àquelas que não se enquadram nesse ideal são atribuídas anormalidades: seja entregando seus filhos para adoção, sendo consideradas como desnaturadas; seja ficando com eles sem condições, sendo consideradas irresponsáveis.
Faz-se necessário atender a mãe no período puerperal, que pode ser caracterizado pela instabilidade emocional, fragilidade psíquica e depressão, ou seja, nada propício para tomar uma decisão, ainda mais quando se tem conhecimento de que não houve um atendimento anterior ao nascimento, preparando-a para este momento. No entanto, não podemos ignorar sua situação considerando que há uma criança incluída. Retornar ao lar com o filho ou postergar tal decisão pode ser mais sofrido e doloroso para ambos. Também existe por parte das instituições envolvidas a preocupação em relação à definição da situação da criança com brevidade. O melhor que se tem a fazer é escutá-la, propor alternativas e criar um espaço para que possa refletir sobre sua opção.
Laloni e Baptista (1999), afirma que durante esse período é necessário um suporte por parte da equipe de saúde, inclusive do psicólogo hospitalar, para que sejam prevenidas experiências negativas e com isso a mãe desenvolva alguma repulsa por este momento da gravidez e do parto, ou mesmo por seu filho. A discriminação sofrida por essas mulheres que “abandonam” seus filhos faz com que não sejam ouvidas não lhes sendo permitido qualquer forma de sofrimento diante da entrega, e se sofrem não merecem ser acolhidas, pois praticaram um ato inconcebível.
É preciso humanizar o atendimento, dando voz a essas mulheres, através da criação de espaços, nos quais elas possam compartilhar seus sentimentos, dúvidas e temores, que auxiliem a tomar a decisão mais responsável e consciente para si mesmas e para seus bebês. Esse acompanhamento deve existir durante todo o processo, isto é, tanto na fase de tomada da decisão como no momento pós-entrega, lembrando que aquelas que passaram por este processo e decidiram permanecer com seus filhos devem ser incluídas também.
Santos (2001), por sua vez, embora admitindo que os fatores de ordem sócio-econômica são importantes para justificar a entrega de um filho para adoção, salienta que, por si sós, eles não são suficientes. Na sua experiência de lidar a vários anos com as mães doadoras, a autora constata que nem todas são pobres e excluídas, como também nem todas sofrem a dor da perda e da impossibilidade de maternar os filhos. Isso pode ser observado, inclusive, através da História. A autora supõe que existam motivações interiores, subjetivas, que levam essas mulheres à doação e chama a atenção para que se evite uma leitura moralizadora ou ideologicamente tendenciosa acerca dessa questão, sendo importante que os profissionais que lidam com essas pessoas adotem uma postura de respeito e convivência com as diferenças culturais, ideológicas e individuais dos grupos atendidos.
É considerável trabalhar a resolução da culpa para evitar tentativa de autopunição. Sendo que, na resolução da culpa é necessário um processo interno de perdão, reparação e uma disposição para perdoar a si própria. Motta (2001) diz que uma das formas de elaborar a culpa dessas mães é a valorização positiva de seu ato.
Enfim, é preciso considerar a singularidade de cada mãe que gesta a vida de um ser, que vivencia a maternidade, mas não a maternagem. Inúmeras situações poderiam ser evitadas se houvesse políticas sociais eficazes e abrangentes para família e principalmente a essas mulheres, inclusive evitar-se-ia uma maternagem situada de maneira negativa, sendo prejudicial à criança ou adolescente.
Apesar de estar garantido por lei que a proteção à família é dever do Estado, apesar de estarem constituídos na Declaração Universal dos Direitos Humanos os direitos da família, da maternidade, da infância, o que discerne é o enorme abismo entre a legislação e a efetivação desta.
E as mudanças precisam começar pelo movimento do cuidar. É preciso entender que cuidar dos direitos da criança é cuidar da mãe biológica; entender que quando uma mãe recebe apoio para pensar a sua decisão, com o tempo e a profundidade necessários para fazer uma boa escolha, é a criança que recebe de imediato os benefícios de uma solução mais sólida e segura para ela. Muito se afirma a respeito da necessidade do estabelecimento de vínculos e de laços afetivos duradouros para o desenvolvimento sadio da personalidade da criança. Mas se não cuidarmos da mãe, a apologia dos cuidados à criança não passará de palavras e ações que se limitarão a remediar estragos que poderiam ter sido evitados (MOTTA, 2001, p. 27)
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Dos Lutos não Franqueados aos Estigmas
Serão indagados alguns aspectos, da não realização do luto da mãe que entrega o filho para adoção, uma vez, que a sociedade estabelece e ostenta regras de comportamento e até de sentimentos, contribuindo assim, para a inibição do luto das referidas mães.
Motta (2005) faz uma comparação entre a perda ocorrida por morte e a perda sofrida pela mulher que entrega o filho em adoção, trata-se de uma perda abrupta, apesar de a criança continuar existindo, a perda é definitiva, tal como se a criança tivesse morrido. A autora conta que as reações emocionais são similares, porém essa mãe apresenta fantasias perturbadoras que intensificam sua culpa. Além disso, a sociedade considera como voluntária essa decisão, por isso, o luto da mãe que entrega o filho é um luto não autorizado socialmente, diferenciando-se do luto por morte
Para Kovacs (1997), existem experiências de vida que nos remete à idéia de morte, pois trazem muitas características geralmente associadas a esse tipo de perda, quer sejam a dor, a ruptura do vínculo, o desconhecido e a tristeza. Em meio aos exemplos citados pelo autor estão os divórcios, doenças, e até situações de crise evolutivas inerentes aos ciclos de vida de uma família, circunstâncias nas quais a separação configura-se de fato como uma perda entre vivos, tal como ocorre com a maioria das mães que entregam seus filhos à adoção, com a agravante de não haver possibilidades de que sejam compartilhadas e elaboradas.
De acordo com Motta (2001), no processo de perda e luto, cada cultura tem seus rituais próprios para permitir às pessoas aceitar suas perdas, enlutando-se pela mesma, elaborando-as e superando-as. São práticas estruturadas e através delas as pessoas que sofreram perdas recebem o reconhecimento da perda, o apoio emocional, o tempo necessário para elaborá-la e a possibilidade de manifestar seu luto aos outros.
Conforme Motta (2008), a entrega de um filho sem a elaboração prévia necessária e o acompanhamento apropriado posterior adequado poderá provir num processo carente de elaboração e, por conseguinte potencialmente devastador para a saúde física e mental da mulher.
Quando as perdas não são socialmente aceitas, tem-se o luto não franqueado, para este não existem rituais sociais, a sociedade não oferece mecanismos de conforto aos enlutados, deixando-os distantes da possibilidade de superar a perda. Portanto para essas mães, não existem rituais nem mesmo a liberdade de mostrar sua dor, a pessoa está separada de muitos fatores que poderiam facilitar a superação da perda. O luto não franqueado não é reconhecido, nem amparado e deve ser ocultado, porque quando revelado causa uma resposta social muito mais negativa. Assim sendo, experiências de perdas não franqueadas podem incluir, por exemplo, a perda de animais de estimação, de parceiros homossexuais pela AIDS, de um filho por aborto provocado, de um parceiro extraconjugal, e dos filhos entregues em adoção (MOTTA, 2008).
No luto não franqueado o sentimento encontrado com freqüência é a vergonha perante as regras da sociedade, e essa vergonha substitui o lugar da dor e conseqüentemente apresentando assim, infinitos meios de negar, inibir e não elaborar o luto adequadamente. Aparentemente independe do que pensam e sentem os familiares e conhecidos a respeito do fato, porque o indivíduo impõe sanções contra si mesmo (MOTTA, 2001). Continua a autora, que a não elaboração do luto, pode gerar raiva, culpa, tristeza e depressão. Essas mães não têm a quem recorrer para vivenciar o luto complicado, não somente porque a sociedade não valida e ampara a enlutada, mas também porque, ao ser desvendado, pode proporcionar retornos mais prejudiciais. Como por exemplo, o isolamento por parte da enlutada e o processo de estigmatizarão social (MOTTA, 2008).
O termo abandono reflete estigmas não apenas para a mãe, como também para a criança. O termo estigma surgiu na Grécia e era utilizado para se referir a sinais corporais que evidenciavam algo mau sobre o status moral de quem os apresentava. Esses sinais serviam para avisar que a pessoa marcada era um escravo um criminoso ou um traidor. Atualmente o termo estigma é utilizado de maneira semelhante ao sentido literal original, e caracteriza o indivíduo que está inabilitado para a aceitação social plena. (GOFFMAN, 1988)
Goffman (1988) argumenta que o indivíduo estigmatizado era visto, assim, como uma pessoa que possui “uma diferença indesejável”. Ele observa que o estigma é atribuído pela sociedade com base no que constitui “diferença” ou “desvio”, e que é aplicado pela sociedade por meio de regras e sanções que resultam no que ele descreve como um tipo de “identidade deteriorada” para a pessoa em questão.
A própria sociedade estabelece os meios de categorizar as pessoas e os atributos considerados comuns para elas. Ao conhecer uma pessoa, os primeiros aspectos observados permitem prever a sua "identidade social". Com isso, muitas vezes lhes são imputadas características que nem sempre são reais. Muitas vezes podem surgir evidências de que a outra pessoa possui um atributo que o torna diferente dos outros. Esse indivíduo pode deixar de ser considerado em sua plenitude e pode ser reduzido, até mesmo, a uma pessoa inferior. Tal característica é um estigma, principalmente quando seu efeito de descrédito é grande, muitas vezes considerado até como um defeito. (GOFFMAN, 1988)
Para Goffman (1988), os indivíduos “normais” projetam as características estigmatizadas nos outros porque não suportam ver neles mesmos estas fragilidades. Na medida em que atribuem aos outros os “defeitos”, não entram em contato consigo mesmos.
Bowlby (1993) elucida que para que o luto tenha um resultado adequado é imprescindível que a pessoa enlutada suporte as oscilações de suas emoções, ou seja, uma fase de certo desespero e desorganização é necessária, pois ela só conseguirá aceitar e reconhecer gradualmente que a perda é permanente e que sua vida deve ser reconstituída se lhe for possível tolerar o esmorecimento, a busca mais ou menos consciente de como e por que a perda ocorreu.
Para Freud, em “luto e melancolia” (1972[1915-1917]) teoriza que a resolução do luto se dá por um processo de desinvestimento, em que a pessoa remove seu investimento psíquico inicial daquele objeto de amor e investe num outro.
Não franquear o luto é privar um individuo de um direito e da oportunidade de cumprir uma extraordinária tarefa psíquica. Motta (2008).
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