sábado, 13 de agosto de 2011

Mito Materno - Nova Representação Social



De acordo com Motta (2008), a ideologia da maternidade nasceu com a sociedade burguesa patriarcal, conferindo a todas as mulheres a faculdade natural de amar sem restrições e de cuidar da criança que concebeu sob quaisquer condições. As que recusam tal destino biológico e social recebem o rótulo de anormais.
A mentalidade, ainda preponderante na sociedade ocidental, que culpabiliza e desconsidera a opção da mulher por não ser mãe ou não criar os filhos que gerou, tem suas raízes no mito do amor materno, que naturaliza e universaliza esse sentimento, engendrando a crença de que este amor é inato à natureza feminina, ao invés de ser descrito como apenas um sentimento humano como outro qualquer e como tal incerto frágil. Pode existir ou não, pode aparecer ou desaparecer, mostrar-se forte ou frágil (Badinter apud Santos, 1998).
Tal mito sustentaria as garantias de amparo, tão caras ao imaginário social. Badinter (1985) nos mostra de maneira muito clara que o amor materno inato é um mito. Torna evidente que este sentimento, considerado como o mais puro e genuíno, que coloca a mãe acima de todas as coisas, pode ser situado historicamente. Ele é adquirido, é produto da evolução social a partir do século XIX, pois nos séculos XVII e XVIII na França as famílias aristocratas entregavam as crianças desde o nascimento às amas. A mãe tinha uma função mais biológica que afetiva, ficando as crianças ao cargo das amas que lhes garantiam a sobrevivência física, o suporte emocional e humanização.
Deste modo, as elaborações sociais e culturais sobre o significado da maternidade estão historicamente associadas à emergência do capitalismo, um sistema social que transforma e revoluciona desde as regras mercantis até os mais íntimos sentimentos que unem os indivíduos entre si. Motta (2008) destaca que determinados “mitos”, como o amor materno, surgiram para atender a interesses econômicos e sociais de uma determinada ocasião, e foram difundidas pelas políticas de gênero vigentes. O mito da “boa mãe” foi eficaz para as tradições familiares e a distribuição de papéis.
O desinteresse geral dos pais pela criança fazia com que elas morressem aos montes. Muitas eram abandonadas nas rodas dos expostos, recurso de acolhimento de crianças enjeitadas por instituições religiosas. Mas a entrega à ama era um infanticídio disfarçado. Apenas um número muito pequeno de pais recuperava seus filhos algum dia. Somente quando essas perdas passaram a interessar ao estado se procurou salvá-las da morte. [...] A verdade é que a criança, especialmente em fins do século XVIII, adquire um valor mercantil. Percebe-se que ela é, potencialmente, uma riqueza econômica. (BADINTER, 1985, p.153). Foi necessária, então, a utilização de muitos argumentos para convencer as mulheres de que era sua vocação instintiva, imaculada e incondicional – ser mãe. Deste modo introduziu o mito do amor materno em primeiro plano e as mulheres foram conclamadas a exercer seus deveres como francesas procriando e cuidando da sobrevivência de seus filhos. Motta (2008).
A mudança de postura em relação à criança estava, portanto, vinculada a essas mudanças e à necessidade do Estado de se afirmar enquanto potência Badinter (1985). Continua a autora, correlatos ao fomento do crescimento populacional surgiram discursos sobre a inerência da maternidade, dos benefícios que esta trazia para as mulheres e os consequentes malefícios quando este objetivo não era realizado. Neste discurso, as mulheres foram consagradas como o eixo da família, responsáveis pela casa e pela criação de filhos moral e fisicamente sadio, os futuros cidadãos honrados de quem dependiam os destinos das nações. A sobrevivência das crianças agora é prioritária e o abandono do aleitamento é considerado injustiça para com o filho.
Buscou-se regular a vida da mulher através de normas higiênicas: a amamentação foi a mais enfática das imposições e tinha também, como objetivo a regulamentação do tempo livre da mulher na casa, livrando-a do ócio e dos passatempos que iam contra a moral e os bons costumes familiares. Essa delimitação das ações da mulher, no lar, objetivava ainda enfraquecer seus desejos de independência, já que [...] nada se dá na mulher que não influa mais ou menos diretamente sobre o inocentinho que traz no ventre, e uma das causas que mais nos convence dessa verdade são as impressões morais [...] (ALMEIDA, 1883, p.2).
Engels (1981) associou as formas de organização familiar ao surgimento da propriedade privada e do Estado. Para ele, a família patriarcal e individual moderna corresponde ao desenvolvimento da propriedade privada, constituindo a premissa para a cisão histórica, própria da era burguesa, entre esfera pública e esfera privada, sendo que esta última se desenvolve simultaneamente com a propriedade e a família.
É, portanto, neste espaço privatizado que surge um sentimento novo entre os membros da família, particularmente entre mãe e filho: [...] o sentimento de família, “essa cultura”, centralizava-se nas mulheres e crianças, com um interesse renovado pela educação das crianças e uma notável elevação do estatuto da mulher [...] (ARIÈS, 1978, p.25).
A técnica de persuasão mais eficaz foi à analogia entre mãe e santa, exigindo-se da mulher sacrifício e reclusão. A maternidade passou a ser encarada, então, como um sacerdócio, que exigia da mulher paciência e total dedicação. O "instinto maternal" guiou a mãe a uma dedicação e amor sem limites uma vez que o devotamento era apontado como parte integral da "natureza" feminina e que nele estava à fonte mais segura de sua felicidade. [...] o ato mais natural da vida da mulher e pelo qual ela se torna grande, sublime, isto é, pelo qual ela se torna mãe, é o parto (COSTA, 1881, p.41).
A partir do século XVIII, a sociedade européia passou por uma série de mudanças sociais, políticas, econômicas e culturais que abalaram a estrutura da Igreja, forçando-a a repensar o discurso que dirigia às mulheres. Paulatinamente a instituição católica passou a associá-las à maternidade. Nesse contexto teria se operado uma transformação dos costumes que, segundo Badinter (1985), transformou a antiga concepção de mulher para a de uma pessoa doce e sensata, de quem se esperava comedimento e indulgência: Eva cede lugar, docemente, a Maria. A curiosa, ambiciosa, metamorfoseia-se numa criatura modesta e ponderada, que não ultrapassa os limites do lar.
Afirmava-se que a necessidade de maternagem é uma característica universal feminina, fazendo-a parecer um dom, um sentimento instintivo e estritamente biológico que todas as mulheres vivenciariam independentemente da cultura ou da condição sócio-econômica: pré-concebido, pré-formado, esperava-se apenas a ocasião para exercê-lo, sofrendo-se quando a oportunidade tardava. Essa concepção foi reforçada pelo discurso católico do século XIX, quando a Igreja, embasada na capacidade física da reprodução, específica da natureza feminina, passou a apresentar a maternidade como característica fundamental do gênero feminino. A condição de reprodutora passou a legitimar uma função social da mulher – a maternidade –, cada vez mais associada à idéia de sentimentalidade e de amor incondicional que as mães teriam pelos filhos.
De acordo com Giorgio (1991), a igreja passou a repensar o caráter feminino, jogando para as mulheres a responsabilidade como progenitoras de uma nova época, de novos homens, cujas vidas deveriam ser preparadas no seio de uma família moderna. Esta se transformou, e com ela os papéis de seus membros. Pais e maridos continuavam sendo as figuras proeminentes. Mas a distância social entre os cônjuges e entre pais e filhos tinha se tornado menos nítida. Continua a autora, que o núcleo dessa nova vida familiar seria a casa, um lugar privado e protegido contra as influências do pensamento que vigorava fora de seus muros externos. O lar passou a ser exaltado como lugar de felicidade feminina, no qual a mulher tinha autonomia. Ali a mãe zelava pelos seus filhos, pelo seu marido, sendo a guardiã moral do grupo familiar: “Ser outro, para outro, através do outro”.
Características como fragilidade e sensibilidade, atribuídas à natureza feminina, foram valorizadas como positivas e desejáveis. A idéia de sensibilidade passou a ser associada à de sentimentalidade, ou seja, à suposta predisposição natural da mulher em ser mais volúvel no que se referia às questões de ordem emocional e moral. Difundiu-se a crença de que a mulher teria maior capacidade para apreender e transmitir as virtudes morais da religião.
Giorgio (1991), afirma que os teóricos católicos se esforçaram para tentar livrar o discurso do forte peso da questão carnal e corpórea da mulher. O corpo ainda permanecia como o lugar do pecado. Mas as prescrições morais tentavam contê-lo, através de um controle maior sobre o comportamento social das mulheres, sobretudo das raparigas.
A Igreja temia os encontros sociais mistos, alegando que eles punham em risco a virgindade feminina. Portanto, era preciso impor uma moral religiosa que afastasse meninas de meninos. Principalmente naquela época em que, de acordo com o autor, a descoberta oitocentista de que a adolescência feminina esconde uma reserva de rêveries (sonhos) de difícil controle preocupa os católicos (e não menos os leigos) (GIORGIO, 1991, p. 222).
Considerando essa “descoberta”, que reconhecia a existência de desejos naturais (sexuais) nas adolescentes, a Igreja escolheu o mês de maio para dedicar a Maria, mãe de Jesus. Destaca-se o fato de que, no continente europeu, esse é o período da primavera, relacionado ao desabrochar e ao florescer da natureza. Assim, temendo essa época de fertilidade natural, ao criar o mês de Maria, mãe e virgem, a Igreja pretendia através das orações e coroamentos dedicados a Ela, conservar a inocência feminina (GIORGIO, 1991, p. 222).  
O que se pedia às mães eram oração e sacrifício, e por isso a identificação social feminina não poderia prescindir do exemplo das santas. Como estas, era preciso ter uma preparação espiritual e cristã que admitisse a necessidade do sacrifício. Segundo Badinter (1985), já não se falava mais da maternidade senão em termos de sofrimento e de sacrifício, deixando-se, por lapso ou esquecimento voluntário, de prometer a felicidade que deveria ter sido a sua decorrência natural.
As dificuldades decorrentes da função da maternidade foram ressaltadas. Não era fácil ser uma boa mãe; afinal, era preciso esquecer-se de si: esse esquecimento de si eleva a boa mãe acima da condição humana, espontaneamente egoísta. Ela torna-se, portanto, uma santa, porque o esforço exigido é imenso. Mas, contrariamente às vocações religiosas, que são livres e voluntárias, a vocação materna é obrigatória (...) todas as mães têm a mesma missão: sacrificar sua vontade ou seu prazer para o bem da família. (GIORGIO, 1991, p. 271).
A salvação da mulher seria encontrada na devoção à família, no seu “dever materno”. Badinter (1985) defende a idéia de que esse devotamento sem limites seria a dor “expiadora” por excelência, aquela que permitiria a Eva transfigurar-se em Maria.
Badinter (1985) situa entre os séculos XVIII e XIX a emergência da representação de maternidade tal como a conhecemos, ou seja, baseada na idéia do amor natural, instintivo, das mulheres por seus filhos. É a partir de 1760 que surgem as primeiras publicações recomendando às mulheres que cuidassem de seus filhos, o que incluía forte ênfase sobre a amamentação.
O ideal de amor não levou as mães a amamentarem, em especial as mais abastadas e as mais pobres, por motivos diferentes. Foi necessário então se apelar à obrigatoriedade da natureza, já que se a mais selvagem das feras amamenta seus filhos, a mulher também estaria submetida a esse instinto, como todo animal: serem boas reprodutoras era o que lhes convinha. [...] a mulher não deve se envaidecer ou extrair prazer de seus órgãos, pois sua função essencial é nutrícia. A natureza criou a fêmea antes de qualquer coisa, permitindo-lhe alimentar o filho com o próprio leite. Ai daquelas que o esquecessem! (BADINTER, 1985, p.183). Continua a autora, as mulheres eram também ameaçadas com a possibilidade de enfermidades se não amamentassem. [...] essa trágica descrição dos riscos corridos pela mãe má mostrava que a natureza sabia se vingar cruelmente das mulheres que lhe desobedecessem. (BADINTER, 1985, p.197).
Como a insistência no instinto materno por si só não havia provocado grandes mudanças e as mulheres não vinham cedendo aos argumentos de que amamentar seria o melhor para preservar a sua saúde e a de seu filho; nem o da beleza das mulheres grávidas; ou a felicidade que apenas o ato da amamentação lhes daria, passou-se a conceber a mãe como alguém puro a quem se atribuem apenas sentimentos nobres de acolhimento, abrigo e continência.  [...] em nenhum caso ela deve se aborrecer ou mostrar à menor impaciência, pois a mãe ignora o principio do prazer e a agressividade [...] (BADINTER, 1985, p.244). Assim, se oferecia a elas a estima, o respeito e a dignidade da sociedade por serem mães dignas deste imaculado nome.  
Embora a transição para este novo papel transcorresse lentamente, as mulheres do final do século XVIII, e, sobretudo as do século XIX, tanto as abastadas quanto as pobres, introjetaram o papel da boa mãe. Inicia-se, segundo Badinter (1985), a era das provas de amor, tornando-se o bebê e a criança os objetos privilegiados da atenção materna. Não casualmente, data do século XIX a presença de um novo personagem no seio das famílias: o médico, que se torna um fiel cúmplice e conselheiro das mães, passa a difundir as normas higiênicas que irão regulamentar o cuidado com a saúde das crianças.
Contudo, as mulheres pobres, camponesas e operárias, viviam outra realidade e sua tardia adesão ao novo papel materno deu-se por outros percursos. Seus filhos começavam a trabalhar ainda na infância, já contribuindo para a subsistência familiar. As precárias moradias da época revelam que não havia espaço para a intimidade familiar. As mães não tinham tempo para cuidar dos filhos, muito menos para promover-lhes atenção, carinho e educação. As taxas de fecundidade, ainda altas, faziam com que as mulheres pobres tivessem muitos filhos, o que tornava irrealizável o ideal de dedicação materna.
Esse contexto permitiu a legitimação do mito do amor materno.
Essa mudança de mentalidade, como toda mudança, trouxe conseqüências: ao mesmo tempo em que muitas mulheres passaram a ter orgulho e alegria na maternidade, outras que talvez não sentissem essa vontade se sentiam culpadas, frustradas e obrigadas a ser mãe.
Conforme Badinter (1985), o ideal da mãe perfeita construído por cada sociedade em geral e por cada família, em particular, tem influências que podem ser positivas ou negativas para mulher e para a criança, assim como para todos de seu convívio íntimo. Muitas mulheres se sentem atormentadas por pensamentos acerca de estarem, ou não, sendo boas mães: ao mesmo tempo em que a sociedade lhes cobra amarem seus filhos incondicionalmente, muitas vezes elas não vivenciam dessa maneira. Em alguns momentos, sentem raiva de seus filhos, dúvidas e se culpam. Contudo, pode-se freqüentemente identificar sentimentos de dúvida e ambivalência no discurso espontâneo das mulheres contemporâneas quando se vêem envolvidas com as questões da maternidade. Muitas se culpam por não sentir ou não agir de acordo com os modelos valorizados na sociedade, com normas inconscientemente internalizadas que se reproduzem através das gerações, integram a subjetividade feminina e modelam papéis. Estas mulheres podem se sentir assim por não amarem incondicionalmente seus filhos, sentirem raiva ou frustração pelo nascimento de uma criança, o que não corresponde àqueles ideais normativos internalizados.
Acredita-se que uma mulher pode conceber e não necessariamente sentir amor por uma criança, e outros imperativos possa fazê-la cuidar de sua criança. Valores morais e sociais são determinantes sobre o desejo e o dever de ser mãe. Os valores de uma sociedade são por vezes tão imperiosos que têm um peso incalculável sobre os nossos desejos (BADINTER, 1985, p.16).



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