Raramente é proporcionada à mãe que doa o filho, uma escuta sem julgamentos, ou seja, ninguém quer saber os motivos que a impeliram a tal decisão. Em contrapartida, justamente por não se interessarem, a saber, nada delas, é que se constrói uma pretensa “verdade” universal sobre as mesmas, geralmente depreciativa e condenatória. Portanto neste subtítulo será dada voz, aos autores que possuem diferente concepção sobre o ato destas mães.
Para a autora o termo abandono é um tanto quanto estereotipado, portanto sua sugestão é a alteração dessa nomenclatura para entrega. [...] insistimos, portanto, no uso do termo entrega para designar o ato que separa a mãe biológica, pois este ato pode estar pleno de amor e preocupação pelo bem-estar da criança, e, portanto muito distante do ato do abandono [...] (MOTTA, 2005, p.264).
É sabido que a gravidez representa um momento marcante para a mulher, pois se trata de um período no qual ocorrem grandes transformações, não só organicamente, mas também em seu psiquismo e papel sócio-familiar. Há também a possibilidade de tais modificações gerarem um grande estresse psicológico, podendo acarretar alguns transtornos que afetem a relação da mãe com seu bebê, como por exemplo, a depressão pós-parto (ARRAIS, 2005).
Winnicott (2001) afirma que a criança nos primeiros seis meses de vida necessita de uma mãe suficientemente boa. Para ser uma mãe suficientemente boa, esta deve identificar-se com o seu filho para que possa estar disposta a dar o apoio que ele precisará nessa fase. Se o apoio egóico da mãe não existe, ou é descontínuo, o desenvolvimento pessoal da criança estará comprometido. Nestes casos, dar o filho em adoção, é a saída mais adequada, é a maior prova de amor. Aqui doar é preservar. Uma mãe suficientemente boa não necessariamente é uma mãe biológica.
De acordo com Motta (2008), a psicologia e a sociologia pós-freudianas rechearam de argumentos a idealização do papel materno das mulheres, uma vez que sustentavam a importância do relacionamento mãe-filho sendo elemento crucial para o bom desenvolvimento da criança.
Para Santos (1998), a maternidade se estabelece como fato exclusivamente biológico e a maternagem é forjada no universo relacional entre mãe e filho. É através da maternagem que serão criados os vínculos afetivos entre mãe e filho, independentemente dos laços biológicos decorrentes da maternidade.
Conforme visto nos capítulos anteriores, a representação da maternidade foi construída socialmente com a obrigatoriedade da presença do amor natural e incondicional. Todavia, assim como qualquer outro, o sentimento materno é subjetivo, construído a partir de uma história, de uma cultura. Como afirma Badinter (1985), o sentimento de amor para com um filho pode existir ou não, depende da vivência histórica, cultural e subjetiva de sua mãe.
Motta (2008) declara que a mãe que entrega seu filho em adoção é a figura materna mais desprestigiada e criticada socialmente, além de receber pouca ou nenhuma atenção por parte das políticas públicas e/ou do Terceiro Setor. Essas mulheres têm uma situação paradoxal: enquanto grávidas têm alguma visibilidade na sociedade, podem receber alguma atenção, mas após o nascimento e entrega da criança, a situação muda bruscamente. O foco da atenção é desviado para o recém-nascido, no sentido de abrigá-lo e encaminhá-lo logo para a adoção, enquanto a mãe passa a ser ignorada, cai no esquecimento, não recebendo o acompanhamento necessário.
Segundo Leitão Fernandes (1989), as mães que entregam seus filhos não são avaliadas dignas de compreensão, havendo somente três condições muito definidas que levam a sociedade a tolerar sua decisão de não ficar com o filho, sendo elas: miseráveis, prostitutas e atrasadas mentais.
Adverte Motta (2008) que esta “aceitação” é reveladora de uma exclusão, ou seja, as atrasadas, prostitutas e miseráveis são pessoas que não pertencem ao segmento da sociedade dita normal e digna, portanto não há expectativas positivas. A aparente “compreensão” é, na verdade, denotação do preconceito que também se apresenta na sutileza que de regra acompanha a estigmatização dessas mulheres.
Motta (2001), ao falar da mãe que entrega o filho em adoção, afirma que não é somente a condição econômica, mas um conjunto de circunstâncias que envolvem a vida da mulher naquele momento.
De acordo com Santos (1998), diz que a vergonha e o medo de desafiar o mito do amor materno têm levado muitas mulheres a preferir abandonar às ocultas seu filho em portas alheias, em latas de lixo e em locais variados a fim de não terem de abrir mão voluntariamente de o pátrio poder, divulgando assim a sua ausência de condição material e/ou afetiva para exercer a maternagem.
Ao contrário do que o imaginário social afirma, a decisão de entregar um filho em adoção ou a idéia de fazê-lo pode ter vários significados, desde aceitar a impossibilidade de criá-lo, sua rejeição à criança ou aceitar a frustração do amor e do desejo de maternar. (MOTTA, 2001).
Este fenômeno está fortemente associado à proibição legal do aborto, à miséria, à falta de esclarecimento à população e à falta de amparo familiar. A maioria dos abandonos se dá por mães jovens (entre 15 e 20 anos), solteiras, com dificuldades financeiras, sem apoio do parceiro e da família. São, em sua maioria, mães excluídas, que abandonam porque foram abandonadas pelas políticas públicas e pela sociedade (BECKER, 1994; WEBER, 2000; WEBER; KOSSOBUDZKI, 1996). Outro relevante fator, apontado por Motta (2001), considera que o padrão de apego e de cuidador, característicos de cada mulher, são fatores de peso na decisão de entrega ou não da criança, independentemente da situação socioeconômica que esteja sendo vivida, ou de quaisquer outras situações adversas.
Segundo Motta (2001) as mães biológicas se autocensuram ao sentirem incapacidade no cumprimento do papel que a natureza lhes impõe. A autora explica que a autocondenação deve-se ao fato de que essas mães internamente carregam os mesmos valores da sociedade da qual participam. Além disso, os sistemas religiosos e legais, para as mães que entregam seus filhos, contribuem para intensificar a culpa das mesmas.
Dolto (1998) enfatiza a importância de desculpabilizar a mãe doadora, criticando o uso do termo abandono quando um casal doa seu filho. Em sua visão, esses pais, na verdade, estão dando a seus filhos meios de sobrevivência. Há aqui um amor imaginário, uma maternidade/paternidade incompatível com a realidade do casal. A sensação de abandono teria ressonâncias menos rudes se as mães pudessem clarificar para seus filhos dados em adoção que estes foram confiados aos que hoje são seus pais.
Motta (2005) afirma que as mães que entregaram seus filhos, por não poderem ficar com eles devido a vários motivos, o tenham feito por simplesmente não apresentar nenhum amor, seria um equívoco. Não se pode dizer, baseados no mito do amor materno, que essas mulheres não amam seus filhos, simplesmente por não terem ficado com eles. Poderá sim compreender essa entrega com uma escuta qualificada e livre de recriminações para então compreender os motivos subjetivos das mães doadoras.
Portanto a autora adverte a importância da substituição do termo abandono, pois esse termo expõe uma postura completamente impregnada de preconceitos e paradoxal em relação à mãe que “desiste” de cuidar de seu filho. Esse termo estigmatiza e, além disso, somado ao segredo que permeia este ato, abrem espaço para fantasias em relação a tal atitude. A criança se sente abandonada, rejeitada, não querida. Por fim, as mães doadoras tentam garantir que seus filhos tenham um lar, uma família que tenha mais condições que ela, demonstrando então sua preocupação e amor pelos filhos doados. (MOTTA, 2005).
De acordo com Motta (2005), para a mãe, além dos sentimentos que podem acompanhá-la pela vida, como a dúvida perante a decisão tomada, a manutenção deste segredo até mesmo para seus familiares ou para novos relacionamentos e a preocupação quanto ao bem estar do filho entregue, do qual nunca mais terá notícias, pode ocorrer também à repetição do ciclo gestação/entrega, pois a não elaboração do luto, a necessidade de preencher um vazio, de se sentir menos culpada podem levá-la a sucessivas gravidezes após a entrega de um filho.
É complicado uma mãe abandonada por sua família, amigos, sem emprego, sem rede de apoio, manter seu filho ao seu lado, pois seus direitos como moradia, alimentação, lazer, saúde, educação e outros não sendo garantidos podem impossibilitá-la a garantir o necessário para que uma criança se desenvolva conforme seus direitos previstos pelo Estatuto da Criança e do Adolescente. Motta (2008) esclarece que a sociedade lhes adverte que a entrega é um ato simultaneamente “bom” e “vergonhoso”, o que as impede de procurar auxílio emocional e serve de combustível que alimenta a dificuldade de elaboração de um luto que, além de não ser socialmente autorizado, passa a ser auto-impedido.
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