sábado, 13 de agosto de 2011

Ações do Psicólogo em Relação à Mãe Doadora



Toda separação mãe/filho é moralmente tendenciosa e predispõe um julgamento negativo sobre o ato, provoca angústias e pode-se remeter o profissional a dogmas, como o do amor materno por exemplo. Entende-se que apelar aos dogmas é uma tentativa de encontrar respostas rápidas, livrando-se da ansiedade gerada pelo tema; mas é preciso enxergar o problema como sendo bem mais amplo e complexo, um problema de difícil solução e não tender a classificá-las segundo estereótipos que a sociedade já lhe impôs. Assim sendo, liberto dos dogmas e de quaisquer pré-conceitos, será possível ao profissional perceber que a atitude de entrega, pode revelar uma atitude responsável, lúcida e um ato de amor.
Motta (2005) autentica a idéia de questionar: como situar em relação à crítica feroz aquelas jovens solteiras pressionadas pela família, abandonadas pelo parceiro, sem emprego e às vezes sem lugar para morar? (MOTTA, 2005, p.60). Assim a autora julga indispensável, um exame e elaboração do histórico de perdas dessas mães, pois auxiliando melhor essas mulheres a superarem seus problemas se tornaria mais fácil tornar-se apta a criar seus filhos, ou realizar sua entrega dentro de condições mais adequadas, saudáveis e legais, evitando traumas, arrependimentos e contestações das doações no futuro. Essa autora aponta que a incompreensão para com essas mulheres se deve à conservação do ideal social de ser mãe, pois àquelas que não se enquadram nesse ideal são atribuídas anormalidades: seja entregando seus filhos para adoção, sendo consideradas como desnaturadas; seja ficando com eles sem condições, sendo consideradas irresponsáveis.
Faz-se necessário atender a mãe no período puerperal, que pode ser caracterizado pela instabilidade emocional, fragilidade psíquica e depressão, ou seja, nada propício para tomar uma decisão, ainda mais quando se tem conhecimento de que não houve um atendimento anterior ao nascimento, preparando-a para este momento. No entanto, não podemos ignorar sua situação considerando que há uma criança incluída. Retornar ao lar com o filho ou postergar tal decisão pode ser mais sofrido e doloroso para ambos. Também existe por parte das instituições envolvidas a preocupação em relação à definição da situação da criança com brevidade. O melhor que se tem a fazer é escutá-la, propor alternativas e criar um espaço para que possa refletir sobre sua opção.
Laloni e Baptista (1999), afirma que durante esse período é necessário um suporte por parte da equipe de saúde, inclusive do psicólogo hospitalar, para que sejam prevenidas experiências negativas e com isso a mãe desenvolva alguma repulsa por este momento da gravidez e do parto, ou mesmo por seu filho. A discriminação sofrida por essas mulheres que “abandonam” seus filhos faz com que não sejam ouvidas não lhes sendo permitido qualquer forma de sofrimento diante da entrega, e se sofrem não merecem ser acolhidas, pois praticaram um ato inconcebível.
É preciso humanizar o atendimento, dando voz a essas mulheres, através da criação de espaços, nos quais elas possam compartilhar seus sentimentos, dúvidas e temores, que auxiliem a tomar a decisão mais responsável e consciente para si mesmas e para seus bebês. Esse acompanhamento deve existir durante todo o processo, isto é, tanto na fase de tomada da decisão como no momento pós-entrega, lembrando que aquelas que passaram por este processo e decidiram permanecer com seus filhos devem ser incluídas também.
Santos (2001), por sua vez, embora admitindo que os fatores de ordem sócio-econômica são importantes para justificar a entrega de um filho para adoção, salienta que, por si sós, eles não são suficientes. Na sua experiência de lidar a vários anos com as mães doadoras, a autora constata que nem todas são pobres e excluídas, como também nem todas sofrem a dor da perda e da impossibilidade de maternar os filhos. Isso pode ser observado, inclusive, através da História. A autora supõe que existam motivações interiores, subjetivas, que levam essas mulheres à doação e chama a atenção para que se evite uma leitura moralizadora ou ideologicamente tendenciosa acerca dessa questão, sendo importante que os profissionais que lidam com essas pessoas adotem uma postura de respeito e convivência com as diferenças culturais, ideológicas e individuais dos grupos atendidos.
É considerável trabalhar a resolução da culpa para evitar tentativa de autopunição. Sendo que, na resolução da culpa é necessário um processo interno de perdão, reparação e uma disposição para perdoar a si própria. Motta (2001) diz que uma das formas de elaborar a culpa dessas mães é a valorização positiva de seu ato.
Enfim, é preciso considerar a singularidade de cada mãe que gesta a vida de um ser, que vivencia a maternidade, mas não a maternagem. Inúmeras situações poderiam ser evitadas se houvesse políticas sociais eficazes e abrangentes para família e principalmente a essas mulheres, inclusive evitar-se-ia uma maternagem situada de maneira negativa, sendo prejudicial à criança ou adolescente.
 Apesar de estar garantido por lei que a proteção à família é dever do Estado, apesar de estarem constituídos na Declaração Universal dos Direitos Humanos os direitos da família, da maternidade, da infância, o que discerne é o enorme abismo entre a legislação e a efetivação desta.
E as mudanças precisam começar pelo movimento do cuidar. É preciso entender que cuidar dos direitos da criança é cuidar da mãe biológica; entender que quando uma mãe recebe apoio para pensar a sua decisão, com o tempo e a profundidade necessários para fazer uma boa escolha, é a criança que recebe de imediato os benefícios de uma solução mais sólida e segura para ela. Muito se afirma a respeito da necessidade do estabelecimento de vínculos e de laços afetivos duradouros para o desenvolvimento sadio da personalidade da criança. Mas se não cuidarmos da mãe, a apologia dos cuidados à criança não passará de palavras e ações que se limitarão a remediar estragos que poderiam ter sido evitados (MOTTA, 2001, p. 27)
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